100 anos de festa, fé e tradição
Em agosto de 2026, a Festa de Nossa Senhora Achiropita, no Bixiga, completou um século de vida, em boa forma: com comida típica italiana (tem fogazza!), foco em obras sociais e muita devoção
GASTRONOMIA
🖊 Luciana Mastrorosa 📷 Rafael Carvalho
8/28/202613 min read


Quando chega agosto, a história se repete, ano após ano, todo sábado e domingo a partir das 17 horas: as ruas do Bixiga, na Bela Vista, em São Paulo (SP), ficam cheias de gente em busca de comida boa e com preço acessível, canções italianas ecoam pelas esquinas, e uma decoração que remete às cores da bandeira da Itália – branco, verde e vermelho – declara a qualquer desavisado que ali tem uma festa italiana, sim. E das boas.
É a Festa de Nossa Senhora Achiropita, considerada a mais tradicional festa italiana do Brasil, e que completou seu primeiro centenário neste ano, com 35 barracas de comidas típicas, como a sempre disputada fogazza, de massa crocante, frita, e muito recheio de muçarela derretida e tomate, e o prato fumegante de espaguete ao sugo, com parmesão e fatias de pão, dois dos itens mais procurados, até hoje, pelos visitantes.
A lei 14.829/24 concretizou o evento como uma Manifestação da Cultura Nacional, e a lei 14.970/2009 incluiu, no calendário oficial do município de São Paulo, o mês de comemoração do Dia de Nossa Senhora Achiropita, a ser celebrado, anualmente, em agosto, sempre no Bixiga. Não é pouca coisa, e certamente é algo muito maior do que os imigrantes italianos vindos da Calábria, devotos de Nossa Senhora Achiropita, pensaram alcançar quando trouxeram uma imagem da Madona junto com suas esperanças para desbravar esta nova terra, e sonharam construir uma pequena capela em sua homenagem.
O que começou com cerca de 200 pessoas envolvidas voluntariamente na festa, no passado, hoje arrebanha mais de 1.200 voluntários que, por um mês, se dedicam de corpo e alma à missão de manter a festividade viva, trabalhando em diversas funções.
Aqui precisamos fazer um breve adendo: a ideia desta reportagem surgiu despretensiosa. Queríamos fazer um retrato da cultura gastronômica de São Paulo, e pensamos que as festas de rua, com seus quitutes típicos e entrada gratuita, seriam um bom começo. Ao dar início à apuração, descobrimos que a Festa de Achiropita completaria seu primeiro centenário em 2026. Não precisávamos mais procurar: já tínhamos encontrado nossa pauta.
Assim, chegamos ao Bixiga num sábado de manhã, para fazer as entrevistas e entender qual o segredo do sucesso dessa festa de rua. Mas a apuração começara semanas antes, quando visitamos a festa, no início de agosto, para sentir como estava o clima, as barracas, provar as comidas, observar a lotação das ruas, anos depois das nossas primeiras impressões sobre a festividade. Afinal, com tantos anos de história, naturalmente a equipe de Com Limão e Sal já tinha passeado pela Achiropita em outros momentos.
Esta jornalista que aqui escreve, mais ainda: para minha surpresa, lembrei que a primeira reportagem que escrevi sobre gastronomia, curiosamente, havia sido justamente sobre a Festa de Achiropita, num longínquo ano de 1998, quando ainda era estudante de Jornalismo. E revisitar aquilo tudo, quase vinte anos depois, seria uma oportunidade emocionante por si só.
Fé, tradição e caridade
No sábado da nossa visita oficial, fomos recebidos na entrada da Paróquia por Maria Emília Conte Moitinho, uma das voluntárias que atende pelas Relações Públicas do evento. A movimentação nas ruas, naquele sábado de manhã, era evidente. Havia um clima de quermesse, familiar e afetivo, que fazia o ambiente vibrar de um jeito vivo, diferente: era realmente um privilégio estar ali, observando tudo ser montado para que, poucas horas depois, as ruas Treze de Maio, São Vicente e Dr. Luiz Barreto começassem a lotar com visitantes de todos os cantos para provar as guloseimas italianas já bem conhecidas na cidade.
Começamos a conversa na Cantina – que, como Maria Emília explicou, é um dos três ambientes da festa. “A gente tem aqui três ambientes: a rua, a Cantina e a igreja”, diz ela. “Na igreja, acontecem as celebrações – as missas – e tem bênçãos de hora em hora, aos sábados e domingos. A igreja fica sempre lotada", explica. Há várias manifestações de devoção à Madona Achiropita durante toda a temporada de festejos, com novena, missa solene e procissão em louvor à padroeira. “Na Cantina, tem o show dos tenores e a pessoa pode experimentar as comidas mais tranquilamente, nas mesas reservadas”, lembra Maria Emília. E a rua, claro, é para passear, comer bem e se divertir, de acordo com o desejo e a possibilidade de cada um.
Logo em seguida, fomos conduzidos para a grande cozinha, onde os preparos do dia já haviam começado. É ali que as comidas são produzidas para abastecer tanto a Cantina quanto as barracas de rua. “Vamos antes que o pessoal suba para almoçar”, convidou ela.
Uma pergunta guiava esta pauta: como uma festa como esta, que funciona majoritariamente com trabalho voluntário, sobrevive 100 anos, e em tão boa forma? Qual seria o segredo? “O grande segredo é a fé que nós temos em Nossa Senhora e, lógico, em Jesus. Então, digo que a fé é o fundamental”, acredita Maria Emília.
Segundo ela, todo o evento é sustentado com base em três pilares: o primeiro, como destacou, é a devoção de todos ali por Nossa Senhora Achiropita. “Isso desperta um sentimento muito lindo nos voluntários, na comunidade, tem um peso imenso. Para você largar tudo, família, afazeres, e vir para cá trabalhar como voluntário, é muita fé”, diz ela.
O segundo é a tradição. “A gente faz questão de manter isso, a tradição e a cultura italianas, nossas origens, de onde a gente veio. Foram os imigrantes italianos que começaram tudo isso, para ter uma igreja, pela devoção à Madona Achiropita. Foram eles que criaram uma festa para arrecadar dinheiro para erguer uma capela em homenagem a ela”, explica a voluntária.
Maria Emília conta que a imagem de Achiropita – “aquela não pintada por mãos humanas”, na tradução de seu nome – veio da Itália acompanhando imigrantes de Rossano, na Calábria, e ficava inicialmente na casa deles, nas famílias. “Mas imagine que era muito difícil tanta gente visitar a imagem em casa. Então os italianos se organizaram para arrecadar comidas e prepará-las. Um fazia o leitão, outro a macarronada, o cabrito, o doce… Para depois vender em leilão e, assim, conseguir fundos para erguer a capela”, completa Maria Emília.
Junto com isso, faziam brincadeiras, tinha pau de sebo, celebrações, colocavam o altar na rua para praticar sua devoção pela Madona Achiropita, tudo com muita música e festa. Com o tempo, foram se organizando mais e conseguiram construir a capelinha, que mais tarde se tornaria a atual igreja, em um pequeno terreno doado. “Dali nunca mais parou. Então a gente quer manter essa tradição. Por isso, o show na Cantina é italiano, as bandeiras, a roupa, a música, todas as referências são italianas. É uma parte importante para nós”, afirma. Ainda hoje, só há duas paróquias, no mundo, dedicadas a Achiropita: a nossa, do Bixiga, e a de Rossano, na Itália.
Tantas décadas depois, o terceiro pilar é o que segue mantendo os demais de pé: as obras sociais. Segundo Maria Emília, são elas que motivam muitas pessoas a trabalhar como voluntários. “Nossa obra é muito séria. A gente atende diariamente mais de mil pessoas. Temos uma creche com 218 crianças de até 6 anos. Depois, dos 6 aos 17, elas vão para o Centro Educacional, onde tem quase 350 crianças. Eles saem daqui já fazendo estágios em empresas, encaminhados”, conta.
Há também ações para idosos, atendimento para moradores em situação de rua e acolhimento de dependentes químicos, dentre outros trabalhos de relevância na comunidade – até assistência jurídica gratuita eles oferecem, para pessoas sem condições de pagar por uma orientação desse tipo. Os principais atendimentos são para pessoas do bairro e da região, mas não apenas. Como Maria Emília destaca, as portas da Achiropita nunca estão fechadas para ninguém. E tudo isso é bancado por uma renda principal: o valor arrecadado na festa anual.
A principal motivação para essas obras sociais vem do legado de São Luís Orione, padre italiano que esteve por aqui para cuidar da igreja de Nossa Senhora Achiropita. “Ele veio para cá e assumiu aquela pequena capela, trazendo os padres da sua ordem, os orionitas, que até hoje estão aqui dando apoio à comunidade”, explica Maria Emília. Dom Orione, como é mais conhecido no bairro, foi beatificado e, em 2004, canonizado. Seu lema era a caridade. O Memorial Achiropita Orione, na rua Treze de Maio, presta homenagem ao santo e exibe relíquias que recontam sua história e a dos italianos que trouxeram sua fé para cá e fizeram história no Bixiga. “Ele dizia ‘onde tem alguém com alguma dor, você tem que estar lá para acolher’. Em 34 países tem obra dele. Então a gente é feliz porque um santo pisou nosso chão.”
Pimentões, berinjelas e muito tomate
Além de todo o aspecto devocional e das obras sociais, a gastronomia conta muito para o sucesso da festa. Inegável que as cerca de 20 mil pessoas que passam pelo evento a cada noite certamente estão em busca dos pratos fartos, oriundos das mesmas receitas que as mammas faziam, lá atrás, quando tudo ainda era um sonho. “É um trabalho muito artesanal. O molho é todo elaborado por elas, é a receita das mammas. Contamos com produtos patrocinados, mas a receita é a mesma. É o molho Achiropita”, diz Maria Emília.
Os números são impressionantes: a cada festa, são utilizados cerca de 20 toneladas de farinha de trigo, 12 toneladas e meia de macarrão, 6 mil litros de óleo, 15 toneladas de muçarela, 7 toneladas de linguiça calabresa e 20 mil litros de molho de tomate, tudo isso regado a 10 mil litros de vinho, 15 mil litros de cerveja e outros 15 mil litros de refrigerante. Tudo para manter as barracas abastecidas e satisfazer o apetite de quem vem conhecer a festa e se deliciar com os comes e bebes.
Nossa visita à cozinha começou pelo olfato: assim que cruzamos as portas envidraçadas, devidamente paramentados com toucas higiênicas, fomos golpeados pelo aroma intenso de pimentão assado, recheado de carne moída e muitos temperos. Havia bandejas e bandejas com cerca de oito grandes pimentões em cada uma, que estavam sendo preparados desde a manhã e seriam servidos na Cantina e numa das barracas posicionadas em frente à igreja, conhecida como a “barraca típica”.
Quem nos recebeu ali foi Vilma Fátima Dias de Souza, a Tata, cuja história de vida está profundamente ligada à festa, assim como a de Maria Emília. “Comecei a trabalhar aqui quando era solteira, e tenho 43 anos de casada. Imagine?”, brinca ela. “São quase 50 anos de história. Eu vendia rifa, depois trabalhei no macarrão, na fricazza. Não era do bairro, conheci a festa por causa da minha cunhada e do meu irmão. Meu marido era nascido e criado aqui, mas nunca tinha participado, fui eu que o trouxe para cá. E ficamos até hoje”, diz ela, orgulhosa.
Tata coordenou a cozinha por 14 anos, depois foi para o almoxarifado e, neste ano, voltou para a área de apoio para a alimentação. Por ser íntima conhecedora do tema, nos conduziu entre os inúmeros voluntários que trabalhavam ativamente naquela manhã assando pimentões, picando pilhas de tomates, fatiando abobrinhas, apurando o molho e montando inúmeros petiscos. “Temos a Marcela, a Shirley e a Laura, que são as coordenadoras da cozinha hoje. São muitas mulheres no comando”, comemora Tata.
O interessante é que todas e todos se vestem com o uniforme da festa, com camiseta, boné e o crachá a postos, mas preferem ser chamados sempre pelo primeiro nome, não importando o cargo e a distinção que possam ter em suas vidas profissionais fora dali. “Aqui somos todos voluntários”, resume Maria Emília. “E todo mundo se desdobra. Somos cerca de 1.300 voluntários este ano, e a maioria não é do bairro, vêm por amor mesmo”, explica ela. “É uma turma muito boa, dedicada, que larga tudo para vir para cá”. E Tata completa: "Quando termina a festa, a gente sente falta, todo mundo fica triste quando está perto de acabar.”
Na celebração da centésima festa, ao lado da fogazza, do espaguete e do pimentão recheado e assado, outros pratos conquistavam a atenção do público, como o nhoque, a polenta, as berinjelas ao forno, a fricazza, o churrasco e os sanduíches, como o de calabresa, além do clássico pratinho de antipasti, com sardela, fatias de pão, caponata, berinjela… Difícil escolher um só.
Para finalizar, os doces também eram de encher os olhos e igualmente remetiam à história dos imigrantes italianos, como os cannoli – rolinhos de massa frita crocante, recheados de creme –, além do tiramisù e dos biscoitinhos típicos. Havia também barracas destinadas a bebidas. E, para os pequenos, opções variadas de diversões e jogos, como canaleta, tiro ao alvo, pula-pula…
Para quem tem orçamento limitado, as barracas de rua são boa pedida: dava para provar uma generosa unidade de fogazza por R$ 25. O salgado é o carro-chefe dos pratos servidos na festa, e são mais de 200 voluntários trabalhando só na sua linha de produção. O prato de antipasti, bom para dividir, custava R$ 40, e é uma das expressões mais autênticas da culinária italiana imigrante do Bixiga. Já a Cantina costuma ser opção mais procurada por famílias e para quem curte apreciar a refeição ouvindo música ao vivo e sem se atropelar na rua. Os ingressos, como explica Maria Emília, custam de R$ 50 a R$ 190 por pessoa. “Tem essa variação porque tem a inteira e a meia, sábado tem um preço, domingo tem outro”, afirma.
O ingresso de sábado costuma ser mais caro (R$ 190, o inteiro), pois inclui as comidas típicas servidas à vontade num mesão, além do show e do conforto de apreciar a refeição à mesa. “No domingo, é diferente, o ingresso custa até R$ 100 e inclui o show e um prato de macarrão. Nesse dia a gente recebe um público que, muitas vezes, não pode pagar o ingresso do sábado, mas também quer ver o show e provar as comidas. Tem que ter a possibilidade para todo mundo”, defende Maria Emília. “E o show é lindo, só música italiana, tem as bailarinas, vêm três tenores brasileiros, é uma forma de você manter a tradição.”
Uma história familiar
Foi muito interessante observar de pertinho (pela segunda vez, no meu caso) essa movimentação interna que resulta numa festa organizada e democrática, que abraça todos os públicos. Todas as voluntárias e voluntários com quem conversamos – de todas as idades, de adolescentes a idosos – mostravam algo em comum: a imensa alegria de estar ali, de fazer parte daquele grande grupo empenhado em manter vivas as obras dos primeiros imigrantes que dedicaram sua fé à Madona Achiropita.
Como Tata e Maria Emília lembram, vem gente de todo lado para trabalhar como voluntário, embora muitos ainda preservem uma ligação íntima com as origens da festa. É o caso de Maria Emília, cuja história se confunde com a da festividade. “Eu estou aqui porque meus avós foram aqueles primeiros italianos que vieram pro Bixiga. Meus pais, eu, meu marido, meus filhos, meus netos, todos seguimos seus passos. Há cinco gerações estamos aqui trabalhando. É uma bênção”, conta ela. E complementa: “Na idade em que eu estou, a gente largar tudo e estar quase todos os dias da semana aqui, para ajudar, fazer voluntariado, é para fazer parte dessa história.”
Embora as delícias gastronômicas servidas na festa sejam geralmente o primeiro contato do público com o trabalho desenvolvido na Paróquia, Maria Emília destaca que, cada vez mais, as pessoas se voluntariam para estar lá durante todo o mês dos festejos por conta dos resultados obtidos com as obras sociais. “São muitos os trabalhos que fazemos aqui. Eu sempre falo que trabalhar com morador de rua, por exemplo, é muito difícil. Não é um público fácil de acolher, mas vou te dizer: muita gente saiu da rua, voltou para a família, foi fazer faculdade, por conta da nossa obra”, diz ela. “A gente tem muitos testemunhos do tipo ‘eu era daqueles homens com saco nas costas e hoje estou aqui’. Então, como que você não consegue levantar 1.300 voluntários sabendo de tudo isso? A gente sacrifica muita coisa, é um mês que a gente dedica realmente para Achiropita justamente para essa finalidade.”
Apesar do inevitável cansaço, a dedicação vale a pena. “Posso dizer que a gente sai daqui muito cansado, no final do dia. Mas na hora em que eu saio, só posso agradecer a Deus pela oportunidade que Ele me deu e ainda está me dando de participar disso”, afirma. “Eu brinco que, antes de nascer, já estava envolvida aqui, porque participava na barriga da minha mãe. Isso é uma parte importante da vida da gente e não dá para deixar de lado. Costumo dizer que quem bebe da água da Achiropita, não quer ir embora. Então, cada dia aumentam os voluntários, é o amigo, o vizinho, o sobrinho… Quando a pessoa vê isso, quer fazer parte.”
Que assim seja! E ano que vem tem mais, com as bênçãos da Madona Achiropita e o trabalho dedicado e alegre do voluntariado.
Festa de Nossa Senhora Achiropita
Memorial Achiropita Orione: memorialaob.com.br
Redes sociais: @festadaachiropitaoficial
Site oficial: achiropita.org.br
Informações sobre as obras sociais podem ser obtidas na rua Treze de Maio, 478, Bela Vista, São Paulo (SP). obrassociais.achiropita.org.br
Para trabalhar como voluntário na festa, acesse: festa.achiropita.org.br/#voluntarios
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